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Resumo
Esta tese de doutorado é um
estudo sobre a família no Brasil dos anos 90, onde são abordadas
mais especificamente as representações e práticas sociais relativas
à construção da conjugalidade homossexual. Parte-se do princípio
de que a família é um fenômeno histórico e sociocultural, cujas
manifestações variam temporal e espacialmente, e que neste final de
século XX vem se caracterizando pela distinção entre funções
conjugais e parentais, principalmente em face da autonomização das
esferas da conjugalidade e da sexualidade em relação à reprodução.
Em conseqüência, o casal conjugal tende a ser socialmente
representado menos como grupo organizado e hierarquizado, destinado à
reprodução biológica, e mais como espaço de exercício de amor e
de cooperação mútua, consagrado à reprodução social.
Nesse contexto, são
analisados os embates ideológicos decorrentes das tentativas de
redefinição das representações e práticas sociais relativas à
família, em sua feição heterocêntrica, a partir das disputas em
torno do reconhecimento social e jurídico das uniões homossexuais,
desencadeadas no Brasil a partir da apresentação, no Congresso
Nacional, do Projeto de Lei n° 1.151/95, da Deputada Marta Suplicy,
que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Observa-se,
por meio de um estudo empírico, que as lutas políticas em torno do
reconhecimento social e jurídico da dimensão familiar das uniões
homossexuais estão constitutivamente associadas à afirmação/negação
do mito da complementaridade dos sexos e dos gêneros, o qual
restringe ao casal macho-homem e fêmea-mulher a competência moral e
social para desempenhar as funções atribuídas à instituição
familiar, especialmente no que diz respeito a direitos parentais.
Observa-se, também, que o não
reconhecimento social e jurídico das relações amorosas estáveis
entre gays e lésbicas como uma família é a principal interdição
que atinge os homossexuais no contexto da realidade brasileira.
Enquanto gays e lésbicas reivindicam a igualdade na esfera publica
entre casais homossexuais e casais heterossexuais, numa perspectiva
integracionista que define os direitos conjugais e parentais como ínsitos
à cidadania e aos direitos humanos de todos, independentemente de
orientação sexual, os setores conservadores, fundados numa concepção
naturalista e religiosa de família, afirmam a necessidade de exclusão
dos homossexuais do rol de sujeitos social e juridicamente autorizados
a constituir entidades familiares, por serem a conjugalidade e a
parentalidade, supostamente, possibilidades limitadas ao universo da
norma heterocêntrica.
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