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Noite de sexta-feira

Cléa Maranhão Gomes de Sá 

     Numa noite de sexta-feira, quanta coisa boa pela frente.

     Primeira delas, o sábado e com ele a possibilidade de se dormir até bem tarde. Outra coisa: se está quente, bebe-se uma cervejinha gelada; se frio, um vinho. Ou então, não se bebe, está frio, pega-se um grosso novelo de lã, pois chegou a hora de fazer tricô.

    As potencialidades de uma noite de sexta-feira não se esgotam aí. Se se quer sair, tem-se a noite toda pela frente, barzinhos com música, casa de amigos com papo varando a madrugada. Se não, ficar em casa é bom.

   É noite de sexta-feira, um disco, a televisão ligada sem som até se ver que filme passará.

   Às vezes, acontece passar um filme de Hitchcock, ou um daqueles velhos filmes em preto e branco que a gente nem sonharia em rever, pois não são considerados filmes de arte, que esses, por mais antigos que sejam, vez por outra passam em algum cine-clube. São filmes que se deseja ver de novo não porque sejam especialmente bons, mas porque lembram uma época em que se acreditava naquelas coisas de americano, podia ser verdade aquela vida maravilhosa que aparecia nas telas, aqueles homens e mulheres corajosos que conquistavam o oeste, não nos importando, então, quantos índios matassem. Ou outro, aquele de um homem íntegro que é acusado injustamente de um roubo no banco onde trabalha e pena pelo resto da vida; e, numa noite de Natal, a neve caindo, a casa coberta de branco, aquela linda árvore cheia de bolas e enfeites coloridos (embora o filme fosse em branco e preto a gente sabia que as bolas eram coloridas), uma linda moça tocando piano, o velho pai, devia ser o Akim Tamiroff, chega à porta da casa para ver os filhos. Ele não agüenta mais, está cansado e maltrapilho, maltrapilho para americano, pois usa um sobretudo de lã e um grosso cachecol, só a cara e o ar são de maltrapilho, e bem, ele toca a campainha e a filha sai do piano e vem atender a porta, o velho pai não tem coragem de dizer quem é, a moça é bonita e alegre, e ele, constrangido, fica calado. A moça pensa que ele precisa de uma esmola, corre, traz a dita com os olhos cheios de lágrimas e fica olhando o velho que se afasta. Quando entram os outros ricos filhos, um já tem até noiva, e perguntam quem era, é só um pobre velho sem família, diz a linda moça com voz trêmula. A gente também está chorando a esta altura.

   Tudo pode acontecer numa noite de sexta-feira. Pode ser que a campainha toque e entre um belo rapaz nos trazendo flores. Ou a notícia de uma herança. Claro que isto não pode acontecer, mas não custa pensar que pode, é sexta-feira e não se acreditou já em tanta coisa mais ou menos assim? Quem sabe passa um filme de Capra, A mulher faz o homem ou Do mundo nada se leva?

   A gente acreditava que os americanos eram os melhores do mundo, quando se era pequeno. A gente tinha vontade de ser menino americano, levantar cedo e sair entregando jornais, tão novinho e já trabalhando mesmo morando numa casa bonita, grande, com um lindo gramado verde na frente. As casas eram todas grandes, bonitas e tinham lindos gramados. Soube, não faz muito tempo, que aqueles lindos gramados custam, em média, o equivalente ao sustento de umas cem famílias da África, ou daqui mesmo. Parece um exagero, não sei se é verdade ou não. Só sei que naquele tempo, quando se era menino, esse dado não entrava, só se tinha era raiva porque nem jornal tinha na nossa cidade e como se podia acordar cedo e sair entregando jornal?

   Dava desconforto sair do cinema depois de ter visto uma daquelas fitas. No filme, todo mundo era louro e feliz; as meninas, feias quando pequenas, usando tranças e aparelho nos dentes, antes do meio do filme ficavam moças e lindas e iam para a universidade namorar rapazes também bonitos que jogavam beisebol. E, como eu dizia, dava um desconforto sair do cinema e andar pela rua esburacada, cheia de poças de lama, olhar os meninos magrelos e quase pretos, ou encardidos. E as casas? Nenhuma bonita, nenhum jardim. E às onze horas, apagada a luz elétrica que o motor da usina só trabalhava até essa hora, a escuridão afugentada por lamparina de querosene, voltava a vontade de ser americano até que o sono chegasse.

   Numa noite de sexta-feira, agora, é bom não ser americano. Para falar a verdade, tem-se até raiva de americano, embora raiva de americano tenha passado de moda. Mas isso não impede que se tenha vontade de ver um filme antigo de Hollywood, porque é noite de sexta-feira e não se quer ficar indignado como se está a semana inteira. É aí que a gente entende o que é colonialismo cultural, não custa confessar, estamos sozinhos e é noite de sexta-feira, se entende também porque os macartistas perseguiam os que faziam cinema, porque cinema é uma arma tão boa como o napalm.

   Agora, porém, não tem mais jeito. Por mais que eles façam filmes não têm mais como convencer ninguém, não a estas alturas do campeonato. Mas será que por esse interior do Brasil, alguma criança ainda sonha em ser americano? A infância já tão longe, não sei o que criança de hoje sonha ou pensa. Mas é noite de sexta-feira e criança é um assunto altamente desmoralizante para se pensar, tira a alegria de qualquer um pensar em criança. É melhor voltar aos filmes. Já não digo filme americano, que a idéia agora está envenenada, mas àqueles filmes da PELMEX que passavam no Cine Pedreiras e eram todos parecidos. A música do Augustin Lara, com Maria Felix ou Maria Antonieta Pons dançando rumba, prostitutas sofredoras e bondosas, noches de ronda e angelitos negros, acuerdate de Acapulco? Os filmes eram tristes. Já se parecia mais com a gente aquele povo moreno, as mulheres tinham cabelos longos, usavam fundos decotes e saias justas e pareciam as muitas mulheres que se viam andando pelas ruas. A gente era pequeno, não queria parecer com aquele povo, mas sabia que parecia e dava tristeza ver com quem a gente se parecia. Tinha Cantinflas e dava para rir do seu jeito de falar depressa e mais depressa, as legendas não acompanhavam o que ele dizia, mas a gente ria e ria triste porque Cantinflas era mais triste que Carlitos, mas Carlitos não pode entrar agora aqui, é já uma outra história.

   A televisão acaba de anunciar um filme feito para a própria. O melhor é tomar o vinho de uma vez e ir dormir que esta sexta-feira gorou, até parece segunda ou terça.