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Neurose da Privacidade

Fernando Tolentino

   Tarde da noite. Hora em que, convencionou-se, as pessoas deveriam dormir. Fora o guarda-noturno, as prostitutas e os vestibulandos. Eu me entendo jornalista, tipo freqüentemente obrigado a se travestir em cada uma dessas condições, com a compensação de obter a licença para trabalhar à noite.

   Meu vizinho de cima não é nada disso. Por isso, trabalho eu, dorme o vizinho de cima.

   Eu, por mim, prefiro trabalhar à (na calada da, se preferirem) noite. É que posso escrever só. Na falta de outras interações, liberto minha intimidade.

   A uma hora dessas, minha janela talvez seja a única acesa no imenso prédio. O silêncio, pesado, cala os ruídos não mais que eventuais de um miado, uma série de silvos de apito, uma conversa ao longe, entrecortada de risos desafinados. Imagino que, pela janela, se propagam os sons que produz a máquina sob os meus dedos.

   Dorme o vizinho de cima? Ou se vira e revira em luta com o insuficiente travesseiro, que não consegue expulsar o matraquear da minha máquina para longe do seu sono? Não, não dorme. Ninguém poderia dormir com a metralha dos teclados gritando o que escrevo. Percebo perfeitamente o ranger nervoso de sua cama.

   Não consegue dormir e fica, naturalmente, imaginando o que faço. Meu dedilhar é insistente e ele o acompanha. Ouve cada movimento de meus dedos através da amplificação dos teclados. Ouve a mudança de linha, a troca de página. Já não consegue pensar em mais nada. Só o ruído impertinente absorve sua atenção. Conta cada batida, seus conjuntos, percebe o ritmo. 

   Com treino e um pouco mais de atenção, já pode adivinhar o que faço, pois o ritmo revela que não escrevo um soneto, trovas ou uma balada.

   Dedica-se agora a perceber com que afinco entrego-me ao texto. Se titubeio e repenso uma frase, o vizinho nota; se desisto de uma palavra e a destruo com xxxxx, ele descobre; se foge a criatividade, preocupa-se comigo.

   Na parede do edifício em frente aparece um retângulo amarelo e no seu centro a silhueta de um homem. Meu vizinho de cima. Já não se contém no leito. Acendeu a luz e vai buscar na janela mais detalhes sobre o meu trabalho.

   Não resta dúvida. Já conhece meu estilo. Vejo variar a expressão de seus gestos na silhueta à medida em que prossigo no texto. Está intrigado com meu trabalho e sua curiosidade ainda se aguça mais. Sinto que teme, pois sabe que também o espreito e posso com meu ofício revelar ao mundo a sua intimidade.

   Paro por instantes e vejo que a luz se apagou. Deitou-se. Ouço de novo o queixar-se das molas de sua cama. 

   Agora tenho certeza: sabe que escrevo sobre ele. A cada movimento que faz, minha máquina se detém para que eu apanhe melhor sua atitude, analise suas causas. Depois, dispara, enriquecida pelas deduções.

   Não é possível. Já não posso escrever nada. O que me arriscar a imprimir será do seu imediato conhecimento. Tento confundi-lo, atribuindo ritmo irregular à datilografia. Não dá. Ele entende logo a manobra. Escuto o seu riso. Que fazer? Como trabalhar em segredo? Não há o menor sigilo. Ele sabe de tudo.

   Tiro desesperadamente o papel da máquina, amasso-o Pela laje vem o barulho dos seus passos, do seu andar agitado pelo quarto, acima de mim. Evidentemente, não aprova minha atitude. Rasgo o papel em tiras, queimo-o. Pela janela, lanço as cinzas. 

   Acima de mim, o vizinho silencia, enfim.

   Suado, angustiado, amanheço debruçado na janela com os olhos pregados nas cinzas. Vejo o vizinho sair, com o ar cansado, o andar trôpego da noite indormida.

   Detém-se junto às cinzas e as observa. Reconhece-as, fita-me e sorri penalizado.

Fernando Tolentino (Premiado no concurso Conta Professor, promovido em 1981 pelo Sindicato dos Professores no Distrito Federal)