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A Rampa

Orivaldo Melo

“Te encontro em Sampa 
de onde mal se vê quem sobe ou
 desce a rampa”

(Caetano Veloso)

     Pedaço de papelão, mas dos bons. Grama não rasga. Suporta o peso pouco, trinta quilos mal distribuídos pelo rosto sujo e cheirando a fome; pela barriga futurística, adiantada; pelas pernas esquálidas mais firmes que o possível de imaginar.

    Nascido Nicolau, parteira atrasada, já veio ao mundo meio roxo, mas veio, com vida, desesperadamente vida. Escapou às estatísticas: se a mãe soubesse que se verificam tantas mortes de crianças antes dos completos cinco anos, teria dado festa, sem bolo, sem refrigerante, qual o quê! Mas com abraço estreito, estreiteza motivada menos pelo afeto que pela magreza de mãe e filho.

    Houvesse a festa, ele indagaria:

    - Cadê pai?

    Não obteria resposta, tampouco estranharia o fato quem sempre ouviu silêncio após o quê. E como a boca amargaria mais, tanto mais insistisse, buscaria com um muxoxo fazer outra coisa que irritasse menos sua mãe

 

    Contava já dois anos de sapatos engraxados na rodoviária, mas só há pouco conhecera a rampa lateral do Congresso. Jornal exposto na banca: “casa do povo”. Teve dúvida se ele seria “povo”, ao notar como diferia aquela casa da sua tantas vezes vitimada por vento e borrasca. Desde então surfava sobre papelão. Desde logo aprendera a gostar de vento no rosto, de velocidade crispando as faces, embora nem sempre as manobras fossem hábeis a ponto de evitar escoriações e zonzeiras. Esquecia o mundo. Que fome?

   

    Escola foi a plataforma inferior, democrática, movimentada, barulhenta e sempre distribuindo fumaça, diesel e hollywood. Garçonete de pastelaria, habitante de periferia, ônibus superlotado, machos no cio e batedores de carteira, vale-transporte e marmita. Dinorá servia de professora. Certo que não sabia o suficiente nem para si, mas dizia coisas que pareciam lições. Gostava dela, gostaria mais se não tivesse a  cicatriz no lábio, lembrança de ex-namorado.

    Havia também o diretor, fiscal da rodoviária, sempre pondo a gurizada para correr. Perdeu unha numa das correrias, porque alguém viajava com tralha de pedreiro exposta no caminho. Teria passado semanas sem pôr tênis, se, claro, tivesse um. 

   

    O brinquedo agora era sagrado. Hora do almoço, se ele tivesse o que almoçar, descia a esplanada, os olhos transbordando vidraças, flores em excesso. Seu brinquedo protegido pelo Supremo. Houve tempo em que, às sextas-feiras, via o Presidente descer a rampa, era mais animado. Verdade, o Presidente também descia a rampa, mas sem papelão, sério demais. Descia somente.

 

    Das caminhadas pelo Eixo Monumental, rumo ao Congresso descobriu certo dia, ao longe, a mancha azul lago Paranoá. Piscina grande, pensou. Bonita. Mas dela só conhecia um aspecto, mas conhecia bem: o nome nos letreiros dos ônibus.

   

    Houve um dia em que não pôde surfar sossegado porque não-sei-quem organizara manifestação contra não-sei-quê no Congresso. Bem que tentou, mas, após atropelar duas manifestantes que, pela cara, deveriam ter mesmo algo de que se  queixarem, desistiu. Aborreceu-se porque, se atrapalhava qualquer coisa na rodoviária, PM intervinha. E ali, a polícia imóvel, os cassetetes serenos nada faziam para garantir sua diversão.

   

    Houve muitos dias.

    Dias de chuva, voltava lambuzado, e no ônibus, se se encostava em alguém, ouvia indelicadezas embebidas na oratória rude do palavrão.

    Dia de ultraleve observado pelo corpo na horizontal.

    Dia de não querer brincar.

    Dia de perder todo o trocado ganho no trabalho. Entristecia, mas era porque invariavelmente apanharia da mãe antes de poder contar metade do ocorrido.

   Houve dias.

   Há dias.

   Inevitavelmente haverá dias.

   E parece que para ele serão sempre assim: descendo a rampa, sua infância; subindo a rampa, Sua Excelência.

ORIVALDO MELO é professor de literatura e assessor legislativo da Câmara Legislativa do DF