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Um Certo Verão

Cléa Sá


   "Era uma vez um verão" foi o título que deram no Brasil a um belo filme, cujo título original era "O verão de 42". Penso no filme, e ele me leva a um outro verão, um que vivi há muito, muito tempo.

   Porque devia ser verão. No Maranhão, as estações, as quatro, não existem. Temos o inverno, seis meses de chuva e calor e o verão, seis meses em que às vezes chove e também faz calor. Não chovia, era pois verão.

   Como é ter dezoito anos e estar apaixonada? Quase não sei mais. Sei que tinha dezoito anos e estava, então, apaixonada.

   São Luís! Não existe no mundo lugar melhor para se estar apaixonada e ter dezoito anos. Na praça Gonçalves Dias, as palmeiras se embalam ao vento que vem do mar, os sobradões nos espiam, a sombra do Jenipapeiro é doce; o bonde vem devagar e nele, sem pressa, vamos para qualquer lugar pois todos são bons já que estamos juntos. Rimos de tudo, até do barulhinho que fazem as moedas na mão do cobrador, os níqueis estão dando pequenas risadas, estamos certos.

   Numa tarde, o bonde nos levou até o Anil. Passamos pelo Largo da Viração, depois, a Escola Técnica, a Psicopata, ou seria o contrário? é já o Monte Castelo, João Paulo; agora, as casas rareiam, trechos meio desertos, chegamos ao Anil, é o fim da linha. Voltamos com o bonde? para quê ? É tão bom o Anil, parece uma pacata cidade do interior, tem uma casa branca com portas azuis e uma árvore grande, pé de sapoti?, de abricó?, sei não. Sei que é lá, à sua sombra, que ficamos enquanto esperamos o bonde ir à cidade e voltar, e é lá que me encontro até hoje, cansada, nem lembro direito o rosto do rapaz a quem amava tanto e por quem tanto chorei, mas sei que a árvore é boa, sua sombra fresca, o cigarro sabia bem. O que conversávamos? não tem importância não conseguir lembrar o que foi dito, seria uma conversa igual a qualquer conversa de dois jovens namorados que tivessem tomado o bonde na João Lisboa e andado devagar até o Anil e lá ficado à sombra de uma árvore alta, esperando a volta do bonde. Importa saber que houve um verão, uma tarde de outubro passada à sombra de uma árvore, no Anil.

   Nesse bonde (pena que acabaram os bondes), descobri uma coisa engraçada, ou melhor, uma coisa linda. A gente conhecia as pessoas de tanto vê-las, no mesmo bonde. Acontecia, por vezes, da gente quase cumprimentar alguém pensando ser uma pessoa amiga até descobrir, num estalo, não, não a conheço, apenas pegamos o bonde no mesmo horário. Pois, nesse bonde, víamos sempre um rapaz muito feio e uma moça também muito feia. Lembro até de ter pensado, olhando a moça uma vez, difícil ser mais feia; e o rapaz, que víamos na Faculdade, era realmente feio, tinha um nariz torto e, disso não tenho certeza, mas me parece que era um pouco vesgo. Um dia, nos espantamos. Os dois estavam juntos e eram namorados. De mãos dadas, olhos nos olhos um do outro, sorriam à-toa e não enxergavam mais ninguém. Estavam bonitos. Durante um certo tempo os vimos juntos, depois, sumiram. Talvez tenham se casado e ido morar em outro lugar, em outro bairro, quem sabe. Mas eram lindos os namorados feios.

Apaixonar-se é uma coisa milagrosa, tão milagrosa quanto a fé. Ninguém escolhe, acontece. É como a fé, mesmo. Ninguém crê em Deus porque escolhe, ninguém diz: eu quero acreditar em Deus, nos Mistérios e, pronto, acredita. Não, vem misteriosamente, é um dom e concedido a poucos. Como apaixonar-se.

   Em São Luís, com dezoito anos, é bom estar apaixonado. De repente, a cidade muda. Os sobrados austeros ficam como mães gordas, bonachonas; as ruas estreitas e sujas permitem risos, me segura aqui, quase caí no buraco, me dá a mão e a mão é dada; o mar, na Beira-Mar, quebra bonito, o cheiro da maresia é um bom cheiro, os canhões que estão ali, nem sei desde quando, a gente os descobre, senta neles, o frio do ferro na pele é uma quebra naquele calor que nos sobe por estar perto de quem se está perto. Aquele palácio ali, onde fica o Governo e que sempre nos pareceu uma agressão aos outros ( tão bonito palácio em terra tão pobre, muda também, é um belo palácio se o olhamos de mãos dadas com o rapaz que amamos e até pensamos, por que se é pobre não se pode ter beleza? 

   As pessoas todas são bonitas quando se está apaixonado. E as coisas caem bem. Na Ponta d'Areia, bebemos, num barzinho coberto de palha, a cerveja mais gostosa de toda a vida e o peixe frito, comido entre risos, não houve nunca mais um outro igual.

   Andávamos pela cidade como turistas, reconhecendo a cidade, parecia. Na verdade, conhecendo a cidade que era o outro: o fundo dos olhos, os pensamentos secretos, as palavras ditas pela primeira vez, as palavras não ditas antes para outra pessoa, as descobertas feitas sozinhos e que deviam ser partilhadas. Bela cidade a que descobri, então. A que tinha dentro do rapaz que eu tanto amava.

   Na São Luís que visito hoje, procuro ainda. Não está mais lá. A praça Gonçalves Dias aqui está. Vejo, aqui, os bancos de pedra, ali, o coreto. É verdade que não existem mais palmeiras, mas não é delas que sinto falta, nem do mar, que continua batendo na amurada; o cheiro da maresia é o mesmo e vive ainda, florida, a trepadeira. A Igreja dos Remédios está no mesmo lugar e é ainda silenciosa e bem cuidada. Falta alguma coisa, e não são os dezoito anos que não tenho mais, é o estar apaixonada que se perdeu.

   E é assim em todos os lugares. Não adianta ir ao Desterro, caminhar em Araçagi, tomar cerveja na Ponta d'Areia, nem comer peixe frito em bar coberto de palha. Não adianta, também, ficar em frente ao Palácio dos Leões, nem tirar fotografia sentada em um dos canhões da Beira-Mar ou ficar na areia da praia, a água nos tocando.

   É por isso que não vou ao Anil. Vai ver a casa branca de portas azuis lá está ainda e também a grande árvore, à sombra da qual nos sentamos numa tarde de verão. É melhor não ir, tenho certeza.

   É uma bela cidade, a cidade de São Luís do Maranhão. Gosto dela. Ruas estreitas, ladeiras, sobradões de azulejos. E ela tem para mim um quê difícil de explicar. Sabe essas histórias de fantasmas? batem uma fotografia e quando a foto é revelada está ali um vulto, uma sombra que ninguém sabe explicar como apareceu? Assim é comigo, agora. Olho a cidade e vejo aqui um vulto esmaecido, ali, a sombra do rapaz que amei um dia. É bom ter esse vulto rondando.

   Não me importa nem quero saber se no rapaz também ficou alguma lembrança. Talvez nada tenha ficado. É suficiente para mim saber, enquanto ando por São Luís, agora de verdade como turista, que, num certo verão, tive dezoito anos e amei. Que, com isso, fui agraciada um dia.